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Eu sinto saudade de casa.
É constante. 
Não passa.
Sonho com São Paulo, sonho com o Brasil.
Eu sonho com cada um que eu deixei. 
O mais dolorido é lidar com tudo isso.
Porque tudo já mudou.
Tudo muda.
A vida das pessoas não para quando a gente viaja. Todo mundo continua, e mesmo que sem muitas coisas incríveis, a nossa vida continua também, mesmo que seja arrastada. 
Eu tenho medos.
Eu nunca tive medo de nada antes.
Eu tenho medo de não ver minha vó envelhecer. 
Tenho medo de meus irmãos não lembrarem dos momentos que já tivemos, e eu ser só a irmã que mora em outro País. 
Eu tenho medo de perder o lugar no coração da minha Mãe. 
Eu ligo pra casa toda semana. 
Tento não ligar quando estou muito depressiva. Ninguém merece me ouvir quando estou depressiva. Nesses dias nem eu queria estar comigo. 
Eu sinto saudade de andar nas ruas da República de noite. 
Sinto saudade da vila Madalena, de cada esquina com a Ana. Com o Zem. Com o Jorge. 
Eu sinto saudade de um álcool barato que comprávamos em frente ao Eclair, antes de ir para qualquer festa. 
Eu sinto saudade do cheio de chuva de São Paulo. 
Sinto saudade Franco da Rocha. 
Sinto saudade do trem lotado, de manhã. Sinto saudade das linhas de metrô. Aqui o transporte público é uma bosta, não da pra percorrer 20 minutos diretos sem fazer 3 integrações. Essa cidade não faz sentido. 
Eu odeio a comida aqui.
A verdade é que não tem algo que eu goste muito. 
Eu acho muito bonito, acho. 
Mas é uma beleza diferente. 
A beleza de Vancouver é como um buquê de tulipas, num dia muito frio. 
Eu sou da praia. Eu gosto de girassol. 
Eu sinto falta até das pessoas que não gostava. 
Eu sinto falta da minha igreja. 
Sinto falta de correr pra lá nos dias tristes. 
Sinto falta de morar no altar nos dias de dor.
Eu sinto falta de ter família. 
Eu não tenho mais muita noção do que seja. 
Tenho saudade da comida da minha mãe. 
Saudade de ir num mercado com comidas normais brasileiras. 
Sinto saudade de falar português. 
Sinto minha personalidade mudando a medida que o inglês se torna mais comum pra mim. 
Tem um ano e meio que eu falo inglês 24h. Eu não consigo me sentir em casa na minha casa, porque eu não consigo falar a minha língua casa na minha casa. E aí, chego à conclusão que minha casa nunca será aqui, porque eu não me sinto em casa. Nem um pouco. Nem por um dia inteiro. 
Eu sonho com São Paulo toda semana.
E o mais triste, é que na maioria dos sonhos, eu não queria acordar. 

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